Covid-19: por que o Brasil ainda não iniciou a vacinação?



O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou em entrevista à TV Brasil que a vacinação contra a COVID-19 no país deverá ter início no final do próximo mês, com alguns grupos prioritários recebendo a primeira dose do imunizante.

Segundo o ministro, funcionários da pasta estão trabalhando diuturnamente para que a vacina possa ser distribuída o mais rápido possível, de maneira gratuita e voluntária. Até o momento, no entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não aprovou nenhuma vacina para ser aplicada no Brasil.

Mais de dois milhões de pessoas já foram vacinadas em dez países contra a covid-19. O Brasil, um dos países mais populosos, com uma das maiores dimensões e também um dos mais afetados pela pandemia, ainda planeja começar a vacinação daqui a um mês, sem uma data oficial estabelecida e uma vacina aprovada até agora, enquanto outros governos da América Latina já começam a vacinar suas populações. 

"A Anvisa ainda não aprovou porque não recebeu a documentação que os laboratórios precisam entregar. Isso é uma rotina em todos os países do mundo que têm também suas agências reguladoras. A mais conhecida, aliás, o FDA, nos Estados Unidos, que é muito rigoroso. E lá, por exemplo, liberaram já a da Moderna e a da Pfizer. As outras ainda estão sendo avaliadas. O que eu entendo é que, no momento em que a documentação chegar, a Anvisa vai trabalhar com a maior rapidez", afirma o médico Sylvio Provenzano, diretor do Serviço de Clínica Médica do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro e ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj).

Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista argumenta que seria um grande risco distribuir vacinas à população brasileira sem garantias de segurança e eficácia por parte do órgão responsável por avaliar esses parâmetros no país. E, por esse motivo, ainda não foi possível iniciar a vacinação em território nacional. 

Apesar do suposto "atraso" em relação a outros países, Provenzano considera plausível o calendário mencionado pelo ministro da Saúde em termos de vacinação.

"Todas as vacinas estão sendo programadas para serem aplicadas com duas doses. Doses essas que devem ter intervalo de pelo menos um mês. É importante que seja assim já que todos os estudos realizados procederam dessa forma. É possível, sim, que os grupos prioritários sejam vacinados em quatro meses."

A vacinação no Brasil, segundo o médico, deverá respeitar a ordem de prioridades estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), começando com os profissionais de saúde, por estarem expostos a uma carga maior do novo coronavírus. 

"Os professores, pessoal da área de segurança... E os grupos de risco para os indivíduos que não estão nessas funções laborais, mas que, se forem infectados, vão ter a forma grave da doença."

Anvisa poderia aproveitar acordos internacionais para aprovar vacinas

De acordo com o médico Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), tendo em vista os acordos que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária tem com a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), e com a Agência Europeia de Medicamentos, a Anvisa poderia aprovar, muito rapidamente, as vacinas que já estão sendo aplicadas nessas localidades, devidamente aprovadas por esses órgãos. 

Também em entrevista à Sputnik, ele explica que essa seria uma medida muito boa para o Brasil, principalmente considerando os altos níveis de imunização das vacinas da Moderna e da Pfizer. 

"Para nós, seria ideal, porque a vacina da Pfizer e da Moderna protegem 95% da população imunizada, o que é absolutamente fantástico. Não acredito que as vacinas com as quais o Brasil tem acordo, que são a Coronavac e a Astrazeneca, possam ter alguma coisa parecida com isso."

Kalil lembra que a vacina da Pfizer tem um fator de dificuldade no que se refere à distribuição, que é a necessidade de ser armazenada a uma temperatura extremamente baixa, -70 ºC. Isso, no entanto, não deveria ser um empecilho para sua aplicação, pelo menos nos grandes centros urbanos brasileiro, uma vez que esse problema já foi "devidamente equacionado" com a criação de caixas com gelo seco que são capazes de manter a vacina na temperatura recomendada durante bastante tempo. 

"Se o Brasil conseguisse comprar, efetivamente, as 70 milhões de doses de vacina da Pfizer, poderia imunizar 35 milhões de brasileiros, os mais suscetíveis. Com esse número, nós poderíamos vacinar, com certeza, todos os profissionais de saúde, todos os idosos acima de 60 anos e grande parte das pessoas que trabalham em serviços essenciais e que, necessariamente, estão em aglomerações."


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