É preocupante observar o nível ao qual parte do debate político vem chegando nas redes sociais. A política sempre foi, e sempre será, um espaço de divergências, críticas e embates de ideias. Isso faz parte da democracia. O que não pode se tornar normal é a substituição do diálogo pelo ataque pessoal, da crítica pela intimidação e do debate público pelo espetáculo do constrangimento.
Quem escolhe ocupar um cargo público precisa compreender que a exposição faz parte do mandato. O agente político, ao representar a população, naturalmente se torna alvo de elogios, cobranças, críticas construtivas e até opiniões duras. Esse é o ônus da vida pública. Nenhum gestor, vereador ou autoridade está acima do questionamento popular, até porque perfeição não pertence ao ser humano.
Nos últimos dias, chamou atenção a postura adotada pelo vereador Wellington Cobra em respostas direcionadas a um cidadão nas redes sociais. As imagens divulgadas mostram comentários carregados de ironias, ataques pessoais e expressões ofensivas como “idiota”, “baixa cognição” e “seres repugnantes”. Independentemente do contexto político ou da intenção por trás das palavras, esse tipo de postura não parece compatível com a responsabilidade institucional esperada de alguém que ocupa um cargo público.
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| Print de resposta do vereador Wellington Cobra a um cidadão que fez críticas a sua atuação nas redes sociais |
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| Resposta do vereador ao cidadão que o criticou nas redes sociais |
Crítica política não é perseguição. Fiscalização e opinião fazem parte do direito de qualquer cidadão em uma democracia. Quando um representante eleito reage a críticas com agressividade verbal, abre-se um precedente perigoso: o da tentativa de constranger quem pensa diferente. O respeito precisa valer para todos, inclusive nas redes sociais, onde muitos agentes públicos acabam confundindo liberdade de expressão com autorização para hostilidade.
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| Print do cidadão que desabafa contra os ataques sofridos por, talvez, criticar a postura do vereador Wellington Cobra |
É impossível não lembrar de períodos em que o debate político, mesmo duro e intenso, era conduzido com maior nível intelectual e institucional. Nomes históricos da política paraibana, como Ronaldo Cunha Lima, Epitácio Pessoa, Tarcísio Burity e Raymundo Asfora marcaram época por discursos fortes, memoráveis e pela capacidade de fazer oposição sem transformar a política em palco de ridicularização permanente.
Hoje, infelizmente, cresce uma política baseada no corte para redes sociais, na ironia vazia e na tentativa constante de viralizar. Muitas vezes, o foco deixa de ser apresentar soluções para os problemas da população e passa a ser apenas gerar engajamento, likes e visibilidade eleitoral. A oposição, que deveria contribuir fiscalizando e propondo melhorias, acaba reduzida a performances que pouco acrescentam ao debate público.
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| Vereador Wellington Cobra limpando mato em algum local da cidade |
É verdade que toda cidade em crescimento enfrenta dificuldades estruturais: mato alto, problemas urbanos, demandas de infraestrutura e críticas à gestão pública existem em praticamente qualquer município em desenvolvimento. Também é legítimo que vereadores façam cobranças e exponham falhas administrativas. Isso faz parte do papel fiscalizador do Legislativo. Porém, há formas mais inteligentes, respeitosas e produtivas de exercer oposição sem recorrer ao deboche excessivo ou ao confronto pessoal.
As imagens divulgadas recentemente, em que o vereador aparece realizando ações simbólicas nas ruas enquanto troca ofensas com um cidadão, acabam revelando um cenário preocupante: a banalização da política e o enfraquecimento da postura institucional que se espera de representantes públicos.
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| Vereador Wellington Cobra angariando engajamento nas redes sociais ao limpar mato na cidade |
O mais lamentável é perceber que essa deterioração do debate não acontece apenas em uma esfera. Ela se repete na política municipal, estadual e nacional. Além dos escândalos recorrentes, a população ainda precisa conviver com episódios de desrespeito, agressividade e espetacularização da vida pública, justamente vindos de pessoas eleitas e remuneradas para representar os interesses coletivos.
Que essa discussão sirva ao menos como reflexão. Discordar faz parte da democracia. Opinar é um direito do cidadão. E um homem público deve estar preparado para ouvir críticas sem transformar divergências em ataques pessoais. O respeito institucional jamais deveria ser tratado como fraqueza, mas como sinal de maturidade política.
Por Simone Duarte










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