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“Privatização da CAGEPA”: falta de transparência, silêncio e contradições que a Paraíba precisa discutir

A decisão do Governo do Estado de avançar com a concessão dos serviços da CAGEPA caiu como uma bomba sobre a população paraibana. Mais do que a discussão sobre ser contra ou favorável à participação da iniciativa privada no saneamento público, o que mais chama atenção é a forma como todo o processo vem acontecendo: rapidamente, sem amplo debate popular, sem transparência suficiente e cercado de questionamentos que até agora seguem sem respostas convincentes.

A população acordou praticamente com a negociação pronta, divulgada como algo já “fechado e concluso”, sem que houvesse um debate público proporcional à dimensão da decisão. Afinal, estamos falando de água, saneamento e abastecimento, um serviço essencial, estratégico e diretamente ligado à dignidade humana.

A pergunta que ecoa é inevitável: quantas audiências públicas realmente ocorreram? Onde esteve o diálogo amplo com a sociedade? Houve participação popular efetiva? Qual foi o nível de transparência dessa negociação? E mais: onde está a discussão legislativa diante de uma medida tão impactante para o patrimônio público estadual?

O cenário se torna ainda mais delicado quando surgem notícias envolvendo a empresa vencedora do leilão, citada em escândalos de corrupção na Espanha. Mesmo que citações em investigações não representem automaticamente condenações, é natural, e legítimo, que a população questione os critérios, a segurança e os bastidores de uma negociação dessa magnitude.

Mas talvez o ponto mais intrigante de toda essa história seja outro: o silêncio.

Sim, o silêncio ensurdecedor de setores que, em 2017, protagonizaram uma verdadeira guerra política quando surgiu a possibilidade de mudanças envolvendo a CAGEPA durante a gestão do então prefeito Romero Rodrigues.

Naquela época, sindicalistas, movimentos ligados ao setor e representantes de categorias reagiram com extrema intensidade. O clima era de revolta absoluta. Quem esteve presente nos protestos lembra da tensão, dos discursos inflamados e do caos instaurado. Havia mobilização, indignação e resistência ferrenha. Falava-se em destruição do patrimônio público, entrega da soberania e ataque aos trabalhadores.

Hoje, curiosamente, o cenário é completamente diferente.

Onde estão agora os mesmos discursos inflamados? Onde estão os protestos? Onde estão os atos públicos? Onde estão os representantes sindicais que antes prometiam resistência até as últimas consequências?

O silêncio do STIUPB e de setores historicamente combativos chama atenção justamente por contrastar de forma tão evidente com a postura adotada no passado. E quando a reação muda tão drasticamente diante de situações semelhantes, é inevitável que a sociedade comece a fazer perguntas.

O que mudou? O que aconteceu nos bastidores? Por que antes havia guerra e hoje existe silêncio? Quem está confortável com essa negociação? Quem ganha politicamente com isso? Quem lucra com esse novo modelo?

Questionar não é atacar. Questionar é exercer cidadania.

Outro fator que torna tudo ainda mais delicado é o timing político da operação. Tudo isso ocorre em um ano eleitoral, o que naturalmente amplia a desconfiança popular. Grandes negociações públicas realizadas em períodos politicamente sensíveis sempre exigem um nível ainda maior de transparência, publicidade e controle social.

O que me chamou atenção foi a coerência política do senador Veneziano Vital do Rêgo, que já se posicionava contrário a esse tipo de medida desde os debates de 2017 e mantém agora o mesmo entendimento. Independentemente de alinhamentos políticos, coerência é algo raro na política contemporânea e precisa ser reconhecida quando existe. Inclusive tem feito postagens diárias em suas redes sociais sobre o tema.

O senador Efraim Filho também demonstrou surpresa e preocupação diante da condução da negociação, afirmando ter tomado conhecimento apenas quando o processo já estaria praticamente consolidado. Isso apenas mostra a sensação de que houve pouca construção coletiva em torno de uma decisão extremamente relevante para o estado.

No fim das contas, o maior problema talvez nem seja apenas a privatização em si. O que mais preocupa é a ausência de transparência robusta, o silêncio seletivo de antigos opositores e a sensação crescente de que a população foi colocada apenas como espectadora de uma decisão já tomada previamente nos bastidores.

A Paraíba merece respostas, debate público, transparência e, acima de tudo, coerência. É impossível não questionar o silêncio ensurdecedor diante de uma decisão tão impactante. Todos sabem que a CAGEPA, há décadas, enfrenta problemas graves e está longe de atender plenamente às necessidades dos paraibanos. Mas também é impossível esquecer que, quando outras gestões tentaram discutir mudanças semelhantes, o cenário foi de revolta, protestos e verdadeira mobilização popular. A “guerra” foi anunciada. Hoje, porém, reina um silêncio estranho e inquietante. Ninguém vai se posicionar? Ninguém vai questionar? O que mudou de lá para cá?



Por Simone Duarte

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