Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e divulgadas pela Folha de S.Paulo revelam tratativas entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o banqueiro envolvendo a compra de uma área de mais de 400 hectares em João Pessoa. Nas mensagens, Motta menciona um “formato de sociedade” que, segundo ele, já havia sido combinado com Vorcaro.
O terreno, onde funcionava uma antiga fábrica de cimento, foi adquirido por R$ 45 milhões e deverá dar lugar a um novo bairro na capital paraibana. Para viabilizar a operação, uma empresa ligada à cunhada de Motta obteve um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões junto ao Banco Master, conforme reportagem anterior da Folha.
Em uma das mensagens, enviada em 9 de março de 2024, Motta relata a Vorcaro que estava reunido com pessoas envolvidas na negociação e afirma que a empresa já havia sido transferida para sua cunhada.
“...acredito que ela não tá sabendo do formato de sociedade que ficou combinado”, escreveu o deputado, ao pedir orientação sobre como deveria proceder diante do prazo para concluir o pagamento à Intercement, empresa ligada ao negócio.
Quatro dias depois, Motta voltou a tratar da negociação com Vorcaro. Em seguida, no dia 15 de março, agradeceu ao banqueiro pela “confiança e parceria” e afirmou que havia conseguido cumprir o contrato dentro do prazo.
“Deu tudo certo a tempo de cumprir o contrato. Depois vamos marcar uma conversa para traçar os próximos passos, acredito que vamos ter êxito no projeto!”, escreveu Motta, segundo a reportagem.
Na sequência, Vorcaro respondeu: “Muito feliz de estarmos juntos! Te admiro muito e esse é o início de uma parceria de vida”. Motta respondeu que a admiração era recíproca.
Área tem mais de 400 hectares
A operação envolveu uma área superior a 400 hectares em João Pessoa, adquirida em abril de 2024. Segundo documentos citados pela Folha, o imóvel foi comprado por R$ 45 milhões, enquanto seu valor fiscal registrado nas matrículas somava R$ 101 milhões.
O espaço, que pertencia à antiga fábrica de cimento, equivale a quase três vezes a área do Parque Ibirapuera, em São Paulo, e está destinado à implantação de um novo bairro.
A empresa envolvida na operação estava em nome de Bianca Medeiros, cunhada de Hugo Motta. Segundo reportagem publicada anteriormente pela Folha, ela contratou em março de 2024 um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões com o Banco Master, utilizando a operação para viabilizar a aquisição do terreno.
Mensagens também tratam do FGC e de projeto sobre carbono
As conversas recuperadas pela PF não se restringem ao negócio imobiliário.
Em março de 2024, Motta pediu a Vorcaro um estudo produzido pela equipe do banco sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e escreveu que os dois poderiam conversar sobre “onde podemos tentar encaixar esse assunto”.
Meses depois, em novembro, os dois também conversaram sobre um projeto relacionado ao mercado de carbono. Segundo a Folha, Vorcaro procurou Motta e o deputado respondeu que estava buscando o texto aprovado pelo Senado para encaminhá-lo ao banqueiro.
As mensagens também registram uma relação de proximidade pessoal entre os dois, que se tratavam como “amigo” e “irmão”. Em abril de 2024, Vorcaro ainda teria colocado uma aeronave à disposição de Motta para uma viagem de Guarulhos a Brasília.
Motta nega irregularidades
Procurado pela Folha, Hugo Motta afirmou que mantém diálogo com diferentes setores do empresariado e da sociedade e negou que os diálogos indiquem qualquer irregularidade.
O presidente da Câmara afirmou que “não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados” e rejeitou a interpretação de que as conversas representariam favorecimento.
Motta também declarou que o empréstimo foi contratado por uma empresa privada junto a um banco privado em período anterior à divulgação das investigações que posteriormente atingiram o Banco Master e Daniel Vorcaro.
A divulgação das mensagens acrescenta novos elementos à relação entre o presidente da Câmara e o ex-controlador do Banco Master, especialmente porque as conversas sobre a negociação imobiliária ocorrem paralelamente à contratação do financiamento de milhões de reais utilizado na aquisição da área em João Pessoa.




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