A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal pelo Senado, na última quarta-feira (29), vai além de um revés para o presidente Lula, no cenário nacional. Embora o rejeitado tenha sido o seu indicado, o maior derrotado é o próprio presidente, afinal quebrou uma tradição de 132 anos sem reprovações. O fato histórico, que impôs uma derrota ao governo Lula, não ocorria desde 1894, quando cinco nomes indicados pelo marechal Floriano Peixoto foram barrados.
Diante disso, voltemos a atenção para a Paraíba, onde o episódio coloca o PT estadual em alerta, expondo decisões contraditórias que a direção partidária vinha evitando encarar publicamente, preferindo ignorá-las.
Um dos focos da controvérsia é a senadora Daniella Ribeiro. Mãe do pré-candidato ao governo estadual, Lucas Ribeiro, ela optou por não revelar seu voto na indicação de Lula ao STF. Essa decisão destoa da postura de outros senadores, que tornaram suas posições públicas, o que é esperado pela população a qual ela diz representar.
A falta de uma explicação sobre o seu voto soa mais alto do que o próprio silêncio. E, convenhamos, se ela tivesse votado a favor da indicação do governo Lula, qual seria o problema em tornar isso público? Isso, inclusive, deveria acontecer como forma de reconhecer e retribuir publicamente a “gratidão” às decisões da presidente estadual do PT, Cida Ramos, que desde o início tem preferido apostar no incerto em vez de garantir o que já está assegurado. Escolhas equivocadas, baseadas em alianças mal calculadas, podem cobrar um preço alto e os sinais disso já começam a aparecer.
Nos bastidores, o alinhamento de Daniella Ribeiro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não surpreende ninguém, nem aqui, nem acolá. Para se ter uma ideia, antes mesmo da votação, Alcolumbre já havia cravado o resultado com precisão: “Ele vai perder por oito votos”. E não é que acertou em cheio? Se fosse um palpite na Mega-Sena, hoje estaria milionário. A declaração sugere, no mínimo, que o desfecho já estava desenhado, com articulações previamente bem amarradas. E aqui, mostra uma consequência de uma decisão de Alexandre de Moraes que ficará para outro artigo.
Como aliada de primeira hora e amiga próxima do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a senadora paraibana Daniella Ribeiro pode, sim, ter acompanhado esse movimento, embora nada tenha sido confirmado até agora. Ainda assim, na política, até o mais discreto dos gestos pode revelar muito, afinal o mais bobo, belisca azulejo. Nesse contexto, a decisão de Daniella Ribeiro de não tornar público o seu voto ecoa forte dentro da base aliada a Lula, na Paraíba.
Evitar a exposição do seu voto pode ter sido uma estratégia. Afinal, declarar alinhamento com Davi Alcolumbre significaria, na prática, admitir um voto contrário ao indicado de Lula, algo que traria, como de fato trouxe, consequências diretas para o projeto político de seu filho na Paraíba. Enfrentar o presidente da República raramente é um gesto sem custo, sobretudo quando se busca manter pontes com setores próximos ao PT no estado.
Não custa lembrar que o senador Veneziano Vital do Rêgo está entre os parlamentares paraibanos com mandato que mais demonstram coerência em seus posicionamentos, mantendo-se como um dos defensores mais constantes de Luiz Inácio Lula da Silva no estado, em diferentes momentos, sejam favoráveis ou adversos. Ainda assim, tem sido colocado em segundo plano pela presidente estadual do PT, Cida Ramos, que agora começa a enfrentar as consequências de escolhas que destoam não apenas de sua trajetória, mas também da própria história do partido.
Cida Ramos optou por se aproximar publicamente do grupo político da Várzea. No entanto, no momento de declarar apoio a quem sempre se posicionou de forma clara e consistente ao lado de Lula na Paraíba, preferiu transferir a decisão para a direção nacional do partido. Uma postura que, na prática, contrasta com a condução adotada anteriormente, quando tomou para si a escolha da pré-candidatura ao governo, em vez de adotar o mesmo critério no caso do Senado, como ocorreu com Veneziano Vital do Rêgo.
Esse movimento de Cida Ramos foi interpretado por muitos como uma tentativa de se posicionar dentro de uma possível composição com o campo de Lucas Ribeiro. A escolha, agora, expõe um cálculo político que não se confirmou como esperado. Substituir uma aliança já consolidada por uma aposta ainda incerta tem seu preço e os primeiros sinais desse custo começam a se tornar evidentes.
Agora, diante do impacto da votação no Senado e das tensões na base governista, Cida Ramos convoca uma reunião de emergência. Resta saber se seguirá priorizando seus próprios interesses ou se adotará uma postura mais coerente com aqueles que estão, de forma clara e pública, ao lado de Lula na Paraíba, como é evidente o posicionamento do senador Veneziano Vital do Rego.
O tabuleiro do xadrez político no Estado está em movimento. As decisões tomadas até aqui já produzem efeitos, e os próximos passos tendem a definir quem permanece competitivo e quem corre o risco de ficar para trás antes mesmo da disputa ganhar forma.
Por Simone Duarte




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