Aliança que cala: PT e PP se unem na PB e a memória de Margarida grita

A política paraibana vive mais um daqueles momentos em que a realidade parece desafiar a própria memória. O anúncio de apoio do Partido dos Trabalhadores (PT) ao Progressistas (PP) na Paraíba, grupo ligado à família de Enivaldo Ribeiro e ao deputado Aguinaldo Ribeiro, gerou desconforto em quem tem memória ou faz uso dela com coerência.

Desconforto esse que tem nome, história e sangue.

Margarida Maria Alves não é apenas uma figura simbólica. Ela foi executada na porta de casa, em 1983, com um tiro no rosto, e o PT usa sempre esse caso publicamente apenas quando lhe convém, outras vezes “esquece” quando também lhe convém. Mas a história não morre, e ela foi relembrada pelos próprios internautas nas postagens do anúncio do apoio do PT ao PP na Paraíba, com muitos afirmando que Margarida “morreu de novo”. Naquela época, depois de enfrentar o poder dos grandes proprietários rurais; hoje, por tal aliança.

Naquele contexto, ao longo das investigações, nomes foram apontados como possíveis mandantes, entre eles Aguinaldo Veloso Borges, ligado ao setor sucroalcooleiro da região. Nunca houve condenação. A impunidade virou parte da história e, ao que se vê, continuará sendo reforçada por aqueles que gritam seu nome apenas quando convém e se calam pelo mesmo motivo. Um verdadeiro escárnio agonizante para quem assiste de fora toda essa contradição espúria e escarnecedora, e ainda mais para quem vive a verdade dos fatos. É justamente por isso que, décadas depois, o nome de Margarida ainda pesa.

Nos comentários das publicações que divulgaram o apoio político, a reação não foi neutra. Foi emocional. Foi direta. “Margarida chora nesse momento”, escreveu um internauta. Outro foi além: “A luta seguirá, não com eles, mas por eles.” Há ainda quem resuma tudo em uma palavra: “vergonha”. Talvez não seja apenas indignação, seja memória.



O mesmo campo político que historicamente ergueu a bandeira de Margarida, que transformou sua história em símbolo de resistência, agora se vê lado a lado, ainda que no jogo pragmático da política, com um grupo que, no imaginário popular e em registros históricos, esteve associado ao outro lado dessa história; o lado do poder que ela enfrentou. E isso não passa despercebido.

A contradição se torna ainda mais evidente quando se lembram discursos como o de Cida Ramos, que já utilizou a tribuna para afirmar que Margarida foi assassinada por latifundiários e que a Paraíba “sabe quem foram os autores”. A fala ressoa até hoje, e agora ainda mais. O que mudou de lá para cá?

É claro que a política exige articulação. Exige composição. Exige, muitas vezes, engolir discursos antigos em nome de projetos pessoais futuros. Mas há alianças que não são apenas estratégicas; são simbólicas. E símbolos não se apagam com facilidade.

Outro ponto que chama atenção é o silêncio controlado. As mesmas postagens que geraram forte repercussão nas redes sociais tiveram os comentários limitados. E perguntar não ofende: por quê?

Seria apenas para conter “ataques”? Ou para evitar que a memória fale alto demais? Porque, quando a memória fala, ela não pede licença. Ela lembra que Margarida foi morta por enfrentar estruturas de poder. Lembra que houve investigações, nomes apontados, suspeitas que nunca se transformaram em condenações. Lembra que a justiça não chegou e que, por isso, a história nunca se encerrou completamente.

E agora, diante de tais alianças que parecem saltar essa mesma linha histórica, a sensação para muitos é de que não se trata apenas de política, mas de coerência, ou da falta dela.

No fim, a pergunta que fica, ainda que ninguém a responda em voz alta, é se Margarida está sendo apenas esquecida ou, como sugerem alguns comentários, revivida da pior forma possível.

E aqui nem cabe aprofundar a contradição de quem prega o cristianismo, mas se alia a quem caminha em sentido oposto a esses valores, defendendo pautas como o aborto, entre outras historicamente contrárias à fé cristã.

É uma incoerência tão evidente que nem a justificativa do Estado laico se sustenta. Laico, ao que parece, é apenas o interesse pelo poder. Gritam o nome de Deus, mas não o temem nem por um segundo.

Mas isso fica para outro artigo!


Por Simone Duarte

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