Agora, mais uma vez, o movimento é cirúrgico. Durante o encerramento do Crescer 2026, em Campina Grande, Fábio Ramalho colocou seu nome à disposição para compor como vice na possível chapa encabeçada por Cícero Lucena ao Governo da Paraíba. Ao lado de lideranças como Romero Rodrigues e do vereador Raoni Mendes, falou em “projeto das oposições” e em mudanças estruturais para o estado. O discurso é técnico, coletivo, estratégico. Mas o gesto é pessoal, para variar.
Desde o evento do PSD já se percebia o ensaio desse movimento. A aproximação de Fábio Ramalho não era casual. É cálculo.
O detalhe que mais chama atenção, contudo, é outro. Mesmo ocupando a chefia de gabinete do prefeito de Campina Grande, Bruno Cunha Lima, não houve, ao que tudo indica, o cuidado político, à época, de comunicar previamente sua ida ao evento e, muito menos, sua pretensão de se lançar como vice em um projeto que não é o do chefe do Executivo campinense.
Nos bastidores, também circulou a informação de que outros integrantes da gestão do prefeito Bruno Cunha Lima, apesar de demonstrarem simpatia pelo projeto político de Cícero Lucena, optaram por não comparecer ao evento. A decisão não teria sido motivada por divergência ideológica, mas por um gesto de “lealdade” institucional, uma forma de preservar, ao menos publicamente, o respeito à autoridade do chefe do Executivo, algo que faltou aos que lá estiveram. Mas esse é um capítulo à parte, que merece análise própria em outra ocasião.
É justamente nesse ponto que o padrão se revela.
Na política paraibana, poucos personagens dominam com tanta precisão a arte de esperar, observar e agir no momento exato quanto Fábio Ramalho. Se alguns o classificam como camaleão, talvez a comparação mais adequada seja a da serpente: silenciosa, paciente e estratégica. Não desperdiça energia. Não avança antes da hora. Mas, quando se move, já calculou o cenário, mediu as consequências e escolheu o lado que lhe oferece melhores condições de sobrevivência.
O episódio da adesão de Pedro Cunha Lima à pré-candidatura de Cícero foi emblemático, a ponto de surpreender até a mim mesma que acompanho a politica há mais de 20 anos. Quando seu nome foi anunciado para discursar, a reação do público superou a expectativa. A ovação foi mais intensa que a dedicada ao próprio pré-candidato ao governo.
Após o encerramento do evento, nos bastidores onde tudo se comenta e pouco se sustenta, falava-se na mobilização de caravanas vindas de Lagoa Seca, um gesto que, para além da demonstração de apoio, funcionou como vitrine de força política para Fábio Ramalho.
Nada ali parecia improviso. A estratégia foi clara: mostrar capital eleitoral, capacidade de mobilização e influência regional. Um recado direto aos veteranos da política, aos que conhecem o jogo há décadas. Era a velha tentativa de impressionar os mais experientes, deixando evidente que sua presença em qualquer composição majoritária não é figurativa, mas numericamente relevante.
O histórico sustenta essa leitura. Fábio já transitou entre aliados e adversários com desenvoltura. Os movimentos recentes demonstraram e demonstram essa interpretação. Há gestos que, à primeira vista, parecem estratégicos, mas que, ao serem observados com atenção, revelam escolhas que não necessariamente fortalecem quem deveria estar ao lado. Apoiar quem disputa o mesmo espaço de um aliado direto não é apenas um cálculo político, é um recado. E, nesse tabuleiro, cada movimento tem peso.
Também não é a primeira vez que articulações silenciosas resultam em mudanças significativas de apoio nas bases de antigos parceiros. Onde antes havia compromisso consolidado, surgiram rearranjos que beneficiaram adversários diretos dos seus aliados. Nos bastidores, discursos firmes. Em público, sorrisos, fotos e falas sobre unidade.
A política admite reposicionamentos, é verdade. Mas, quando eles se repetem e produzem efeitos semelhantes, enfraquecendo aliados e fortalecendo concorrentes, deixam de ser coincidência e passam a revelar método.
Chamá-lo de esperto por nascença talvez seja apenas reconhecer sua habilidade de leitura de cenário. Ele não se move por impulso, mas por oportunidade. E oportunidade, na política, é quase uma ciência exata: estar no lugar certo, ao lado certo, na hora exata.
Acrescento que a questão envolvendo o deputado estadual Fábio Ramalho não é ilegalidade, é estilo. E seu estilo parece ser o da sobrevivência estratégica, sua própria, lógico. Na selva política, ele não age como presa. Age como quem observa em silêncio, mede o vento e, quando decide avançar, raramente o faz sem ter certeza de que o terreno lhe é favorável.
Por fim, deixo um esclarecimento antecipado para o deputado Fábio Ramalho: Sei que você vai ler este artigo e, antes mesmo que imagine, questione ou me ligue perguntando se alguém sugeriu essa análise, já respondo: NÃO. Escrevo por iniciativa própria. Faço isso amparada pela liberdade de imprensa que norteia meu trabalho e pelo direito legítimo à análise crítica, à opinião e à interpretação de fatos públicos, especialmente quando envolvem figuras públicas e atos políticos amplamente conhecidos. E, acima de tudo, escrevo porque tenho plena capacidade para fazê-lo.
O que está exposto aqui é uma leitura opinativa d se próprio punho, construída a partir de acontecimentos públicos, declarações registradas e movimentos políticos evidentes. A crítica política, quando fundamentada em fatos e claramente posicionada no campo da opinião, é elemento indispensável ao debate democrático. E tenho dito!
Por Simone Duarte



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