Que cena lastimável e vexatória a ocorrida nesta quinta-feira, 12, no Hospital Municipal do Pet, em João Pessoa. O vereador Guga Pet transformou a causa animal em palanque eleitoreiro. E digo, como defensora e parceira da causa em Campina Grande: a proteção animal não merece ser arrastada para o centro de um espetáculo político. O que se viu foi teatralidade. Não foi fiscalização técnica, mas tensão encenada.
A função fiscalizatória de um vereador é legítima, necessária e encontra amparo na Constituição. No entanto, prerrogativa não é salvo-conduto. Fiscalizar exige respeito à legalidade, aos protocolos administrativos e à separação dos Poderes. O que a Constituição garante como instrumento de controle não pode ser deturpado como autorização para transformar equipamento público em cenário de confronto midiático. Fiscalização não se confunde com invasão, constrangimento ou performance.
Chama atenção o fato de que o próprio vereador já foi secretário municipal de Cuidado e Proteção Animal na gestão do prefeito Cícero Lucena. Conhece a estrutura, os fluxos administrativos e os limites da atuação parlamentar. Portanto, não se trata de desconhecimento. Se havia denúncia de negativa de internação, o rito republicano é claro: requerimento formal de informações, solicitação de relatórios, acionamento da Secretaria responsável e, se necessário, provocação do Ministério Público.
Quando se abandona o caminho institucional e se opta pelo embate público sob câmeras, o debate deixa de ser técnico e passa a ter contornos eleitoreiros.
E aqui surge a pergunta inevitável: o que há de comum entre Guga Pet e Gabriel Monteiro? Não se trata de equiparar acusações ou trajetórias, mas de observar métodos. Gabriel Monteiro construiu notoriedade com fiscalizações performáticas, sempre com câmeras ligadas, transformando conflitos administrativos em conteúdo político.
O resultado foi a perda do mandato por quebra de decoro e desdobramentos judiciais graves. O paralelo que traço aqui é sobre o risco do populismo fiscalizatório, quando o mandato vira vitrine e a exposição passa a valer mais do que a solução efetiva do problema.
No caso em João Pessoa, o contexto mostra claramente essa leitura. Pré-candidato a deputado estadual, o vereador atua em uma causa sensível, capaz de mobilizar emoções e engajamento social. Quando a atuação parlamentar ocorre em clima de confronto público e culmina com condução à delegacia para esclarecimentos, é evidente que houve questionamento quanto à forma adotada. O mandato não imuniza contra excessos. A própria Lei de Abuso de Autoridade estabelece limites para agentes públicos que extrapolam suas funções.
A causa animal exige políticas públicas consistentes, orçamento adequado, gestão eficiente e fiscalização responsável. Transformar hospital em arena pode gerar manchetes, mas não resolve estruturalmente o atendimento. Há diferença entre defender a causa e utilizá-la como instrumento eleitoreiro. Entre agir com firmeza institucional e apostar na encenação.
Fiscalização não é invasão: mandato não é palanque e a causa animal não pode e não deve ser instrumento de selvageria eleitoreira e midiática. A Causa Animal não é palco para cachorrada eleitoreira!
Por Simone Duarte



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