A política paraibana assistiu, nesta sexta-feira, 20, a uma cena que causa perplexidade, sobretudo entre aqueles que se identificam com os valores conservadores. O pré-candidato ao Senado pelo PL, Marcelo Queiroga, ao comentar a formação de chapa, recorreu a uma metáfora de cunho sexual para ilustrar que não pretende agir com pressa. O problema não está apenas na comparação infeliz. Está no simbolismo, na incoerência e na quebra de postura que se espera de quem pleiteia uma vaga no Senado da República.
Sou incapaz, inclusive, de reproduzir aqui os termos chulos utilizados pelo pré candidato. Não me permito escrever aquilo que ele disse em rede pública. Quem optar por ver e ouvir o vídeo poderá fazê-lo logo abaixo. Mas, sinceramente, se não quiser sentir indignação ou até náusea, aconselho que nem assista. Ou assista e tire suas próprias conclusões, talvez até desista de votar em um pré-candidato que, de direita, aparentemente só escreva com a mão direita.
Durante todo o Carnaval, vimos críticas contundentes de setores da direita às manifestações culturais que atacaram a família cristã e os valores tradicionais. Houve indignação, discursos inflamados, vídeos e notas públicas condenando o que foi classificado como desrespeito. Mas como explicar que, no mesmo campo político, alguém que se apresenta como representante da direita paraibana utilize termos de conotação sexual explícita em entrevista pública?
A incoerência é evidente. Se a defesa da família é uma bandeira inegociável, ela deve ser sustentada não apenas quando convém atacar adversários ideológicos, mas também quando o deslize parte de dentro do próprio grupo. Caso contrário, o discurso vira instrumento seletivo, usado conforme a conveniência política.
É impossível ignorar o constrangimento. Como uma filha cristã, que preza por princípios e respeito, mostra a entrevista à sua mãe, à sua família, e ainda pede votos para alguém que se expressa dessa forma? Como justificar a jovens e crianças que determinados termos são inadequados no ambiente familiar, se um pré-candidato ao Senado os utiliza com naturalidade diante das câmeras?
Há ainda um agravante: trata-se de um médico, alguém cuja formação pressupõe ética, equilíbrio e responsabilidade no trato público. A informalidade não pode ser confundida com vulgaridade. O humor não pode servir de salvo-conduto para a perda de decoro. O cargo ao qual se aspira exige compostura, sobriedade e capacidade de comunicação à altura da relevância institucional.
Não se trata de moralismo exagerado. Trata-se de coerência. Também não cabe a narrativa simplista de que “é melhor falar palavrão do que roubar”. O eleitor não deve se contentar com a régua baixa. O ideal é que não se roube e que também não se degrade o debate público. Ética e postura não são excludentes; são complementares.
Quando um pré-candidato ultrapassa limites básicos de civilidade, precisa ter a humildade de reconhecer o erro. A política brasileira já sofre com descrédito suficiente para que seus aspirantes a cargos majoritários contribuam para elevar o nível do debate, e não para rebaixá-lo.
Se a intenção era parecer descontraído, o efeito foi o oposto. Soou despreparado, desnecessário e incompatível com o discurso de defesa da família que tantos afirmam sustentar. Antes de pedir votos, talvez seja prudente fazer uma reflexão pública, um pedido de desculpas às famílias que assistiram a vulgaridade e aos termos chulos proferidos por Marcelo Queiroga, além do dever moral de mostrar um compromisso claro de que o respeito será a tônica daqui em diante.
Porque o Senado não é palco para improvisos vulgares. É espaço de representação, responsabilidade e exemplo. E quem deseja ocupar uma cadeira ali precisa demonstrar, desde já, que está à altura do que o cargo exige.
Por Simone Duarte



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