A mortandade de peixes registrada nos últimos dias no Açude Velho, em Campina Grande, tem como causa principal um fenômeno natural conhecido como circulação vertical, intensificado por impactos ambientais acumulados ao longo dos anos. A explicação é do professor e especialista em liminologia, Henio Nascimento, que esteve no local analisando a situação.
Segundo o especialista, a circulação vertical ocorre com frequência em açudes do semiárido nordestino devido às altas temperaturas durante o dia e noites mais frias, características típicas da região. Durante o dia, a água se organiza em camadas com diferentes temperaturas e densidades. À noite, o resfriamento da superfície aliado à ação dos ventos provoca a mistura dessas camadas.
“O problema é que, quando esse fenômeno acontece em um açude submetido constantemente a impactos ambientais, como o lançamento de esgoto, ele se torna extremamente danoso”, explica Henio Nascimento.
Com a intensificação da circulação vertical nos últimos dias, favorecida por calor excessivo, noites frias e ventos fortes, o sedimento acumulado no fundo do açude foi revolvido. Esse material, rico em matéria orgânica, deixou a água com coloração marrom e alta turbidez.
Dentro desse sedimento estão gases como metano e gás sulfídrico, produzidos pela decomposição anaeróbica da matéria orgânica. “Esses gases ficam presos no fundo e, quando são liberados para toda a coluna d’água, tornam-se letais para os peixes, que morrem intoxicados antes mesmo da falta de oxigênio”, destaca o liminólogo.
De acordo com Henio Nascimento, as ligações clandestinas de esgoto são o principal fator de risco, pois aumentam significativamente a carga de poluição e matéria orgânica do açude. “A circulação vertical acontece naturalmente todos os dias. Em um açude saudável, isso não gera problemas. Mas em um ambiente que recebe esgoto continuamente, o risco de eventos como esse cresce de forma exponencial”, afirma.
O professor também chama atenção para a ausência de um sistema eficiente de renovação da água. “Historicamente, o Açude Velho já abasteceu Campina Grande. Hoje, infelizmente, ele funciona como uma fossa aberta, onde só entram dejetos, sem uma saída adequada de água”, pontua.
O especialista é categórico ao afirmar que não existe solução emergencial para o problema atual. “A natureza não avisa quando o fenômeno vai acontecer nem quando vai cessar. O que pode ser feito é evitar que o açude reúna as condições que potencializam esses eventos”, explica.
Entre as soluções de longo prazo apontadas estão:
Fechamento definitivo das ligações clandestinas de esgoto;
Implantação de um sistema contínuo de entrada e saída de água, especialmente retirando água do fundo do açude;
Realização de dragagem, para remover o grande volume de sedimento acumulado ao longo de décadas.
Mesmo com essas medidas, Henio Nascimento alerta que os efeitos não seriam imediatos. “São muitos anos de acúmulo de matéria orgânica. Sem um trabalho estruturado e contínuo, fenômenos como esse continuarão a ocorrer”, conclui.



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